No último artigo, falávamos de infanticídio, e se existem razões para que as fêmeas permitam que aconteça este tipo de abuso. Pois bem.

Os estudos acerca desse tema chegaram à conclusão que a fêmea não tem escolha. É um beco sem saída. Embora algumas espécies tenham desenvolvido estratégias para enganar o macho, a conclusão que se chega é que é o preço que elas pagam para ter os machos por perto.
Ou seja, em ataques de outros bandos, os machos infanticidas protegerão seus filhotes, enquanto que os que não são filhotes seus ficarão desprotegidos, e serão mais facilmente mortos. Biologicamente falando, a fêmea acaba tendo um “prejuízo genético”, já que seu filhote não se reproduzirá, e não levará adiante seus genes.
As fêmeas não aceitam o infanticídio assim tão facilmente. Uma das táticas usadas é confundir o macho recém chegado em relação à paternidade. Uma forma de confundi-lo é dar sinais de interesse sexual. As fêmeas primatas em geral conseguem deixar seus órgãos sexuais intumescidos, ou até simular um falso estro.
No caso das fêmeas que já se encontram prenhas no momento da troca do líder do bando, a vantagem para os futuros filhotes é óbvia. Se o novo macho puder aceitar os filhotes como seus, não irá machucá-los. Tudo o que a fêmea puder fazer para influenciar na maneira que o líder trata seus filhotes é importante para seu próprio sucesso reprodutivo.
Não é absurdo especular-se que a ameaça apresentada por machos infanticidas tenha influenciado o desaparecimento dos sinais visíveis do estro nos ancestrais de primatas humanos. O perigo constante do infanticídio pode ter sido uma das várias pressões seletivas para uma mudança entre os primatas mais avançados, fazendo-os deixar uma receptividade sexual regulada estritamente pelos hormônios e adotar a receptividade determinada por fatores sociais.
Em roedores, desenvolveu-se uma estratégia feminina diferente contra o infanticídio. O simples odor de um macho estranho induz as fêmeas ao aborto. O chamado Efeito Bruce (em homenagem à bióloga Hilda Bruce, que estudou esse comportamento) pode ser uma estratégia materna para reduzir e até mesmo recuperar parcialmente o investimento da fêmea em uma prole com chances de ser assassinada por um macho infanticida.
Uma mensagem clara nesse quadro de artimanhas e imposturas, com o objetivo de subverter a escolha feminina, é que os machos (humanos ou não) irão a extremos para proteger seu investimento de espermatozóides; as fêmeas responderão com contra-estratégias, visando tornar a questão confusa.
Não podemos esquecer que não devemos julgar as atitudes/estratégias de um animal através das nossas. Esse assunto, tratado dessa forma é realmente pesado, e nos faz entender alguns comportamentos humanos também. Na espécie humana, a violência masculina contra fêmeas e filhotes é uma ameaça real (algumas tribos indígenas praticam o infanticídio – crianças com problemas de saúde, deficientes ou um dos gêmeos).




















